Armando Nogueira (1927-2010)

Armando Nogueira

Armando Nogueira

De acordo com o site do jornal Extra, o jornalista e cronista esportivo Armando Nogueira morreu nesta segunda-feira, 29.03.2010, aos 83 anos, vítima de câncer, no apartamento onde morava na Lagoa, bairro da Zona Sul do Rio:

Nascido na cidade de Xapuri, no Acre, Armando trabalhou durante 25 anos na TV Globo, onde foi responsável pela implantação do jornalismo em rede nacional e pela criação do Jornal Nacional e do Globo Repórter. Em 1950, o jornalista foi trabalhar na cobertura esportiva do jornal Diário Carioca, onde permaneceu durante 13 anos. Armando Nogueira foi pioneiro na televisão brasileira, ao trabalhar, a partir de 1959 na primeira produtora independente do país, dirigida por Fernando Barbosa Lima, onde escrevia textos para o locutor Cid Moreira. Ele escreveu dez livros, todos sobre esportes.

A nota foi encontrada aqui.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o governador do estado, Sérgio Cabral, decretaram luto oficial de três dias pela morte do jornalista. O corpo de Armando Nogueira será velado no Maracanã.

Maracanã de luto

Maracanã de luto

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‘Ele me ensinou a fazer telejornalismo’, diz William Bonner sobre Armando Nogueira, que acrescentou, no Twitter:

Armando Nogueira, mestre, comandante primeiro e maior do “Boeing” JN, que este seu primeiro voo por novas rotas lhe seja sereno e aprazível.

Nesta segunda-feira, 29.10.2010, a Globo News presta homenagem ao jornalista e comentarista Armando Nogueira. Excepcionalmente, o ‘Arquivo N’ será exibido hoje à noite para contar a trajetória do jornalista. A equipe do programa prepara um especial inédito, que será apresentado às 23h30. Serão lembrados os momentos marcantes da carreira de Armando, sua atuação no telejornalismo brasileiro, suas famosas crônicas e livros e a grande paixão pelo esporte. Hoje, não será apresentado o programa ‘Milênio’. O programa será ainda exibido em horários alternativos: de segunda para terça-feira, às 03h30; terça-feira às 11h30 e às 17h30; de terça para quarta-feira às 05h30; quinta às 06h30; domingo às 07h05; e de domingo para segunda às 04h30.

Armando Nogueira

Armando Nogueira

No Globo Online:

(…) Ex-diretor da Central Globo de Jornalismo, Armando morreu por volta das 7h em seu apartamento na Lagoa, na Zona Sul do Rio. Ele sofria de câncer no cérebro desde 2007.

Armando Nogueira nasceu em Xapuri, no Acre, em 14 de janeiro de 1927. Com 17 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Direito. Mas a paixão pelo futebol, que sempre o acompanhou, logo o levou para o jornalismo. Iniciou sua carreira de repórter no jornal “Diário Carioca”, em 1950. Em 1954, cobriu sua primeira Copa do Mundo, na Suíça. Desenvolveu um estilo lírico e moderno de crônica esportiva, que se tornou referência e foi copiado por diversos jornalistas. Era um cultor do bom texto.

Entre 1966 e 1990, ocupou o cargo de diretor de jornalismo da Rede Globo – foi um dos criadores do “Jornal Nacional”. Em seus quase 60 anos de carreira, também trabalhou nas revistas “Manchete” e “O Cruzeiro” e no “Jornal do Brasil” e foi comentarista esportivo do canal a cabo “Sportv”, da “Rede Bandeirantes” e da rádio “CBN”.

Em entrevista à emissor “GloboNews”, o jornalista Silio Boccanera lembrou a importância de Armando Nogueira para a Rede Globo e o jornalismo televisivo no Brasil:

– Ele foi um pioneiro. As pessoas esperavam o “Jornal Nacional” para se informarem sobre o Brasil e o mundo. Vivíamos um período de censura muito intenso. Foi uma fase dura e Armando aguentou isso com energia, paciência e habilidade diplomática – contou Boccanera. (…)

Leia mais clicando aqui.

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Crônica de Clarice Lispector sobre Armando Nogueira:

Armando Nogueira

Armando Nogueira

Armando Nogueira, futebol e eu, coitada

E o título sairia muito maior, só que não caberia numa única linha.
Não leio todos os dias Armando Nogueira – embora todos os dias dê pelo menos uma espiada rápida – porque “meu futebol” não dá pra entender tudo. Se bem que Armando escreve tão bonito (não digo apenas “bem”), que às vezes, atrapalhada com a parte técnica de sua crônica, leio só pelo bonito. E deve ser numa das crônicas que me escaparam que saiu uma frase citada pelo Correio da Manhã, entre frases de Robert Kennedy, Fernandel, Arthur Schlesinger, Geraldine Chaplin, Tristão de Athayde e vários outros, e que me leram, por telefone. Armando dizia: “De bom grado eu trocaria a vitória de meu time num grande jogo por uma crônica…” e aí vem o surpreendente: continua dizendo que trocaria tudo isso por uma crônica minha sobre futebol.

Meu primeiro impulso foi o de uma vingança carinhosa: dizer aqui que trocaria muita coisa que me vale muito por uma crônica de Armando Nogueira sobre digamos a vida. Aliás, meu primeiro impulso, já sem vingança, continua: desafio você, Armando Nogueira, a perder o pudor e escrever sobre a vida e você mesmo, não posso perdoar que você trocasse, o que significaria a mesma coisa.

Mas, se seu time é Botafogo, não posso perdoar que você trocasse, mesmo por brincadeira, uma vitória dele nem por um meu romance inteiro sobre futebol.

Deixe eu lhe contar minhas relações com futebol, que justificam o coitada do título. Sou Botafogo, o que já começa por ser um pequeno drama que não torno maior porque sempre procuro reter, como as rédeas de um cavalo, minha tendência ao excessivo. É o seguinte: não me é fácil tomar partido em futebol – mas como poderia eu me isentar a tal ponto da vida do Brasil? – porque tenho um filho Botafogo e outro Flamengo. E sinto que estou traindo o filho Flamengo. Embora a culpa não seja toda minha, e aí vem uma queixa contra meu filho: ele também era Botafogo, e sem mais nem menos, talvez só para agradar o pai, resolveu um dia passar para o Flamengo. Já então era tarde demais para eu resolver, mesmo com esforço, não ser de nenhum partido: eu tinha me dado toda ao Botafogo, inclusive dado a ele minha ignorância apaixonada por futebol. Digo “ignorância apaixonada” porque sinto que eu poderia vir um dia apaixonadamente a entender de futebol.

E agora vou contar o pior: fora as vezes que vi por televisão, só assisti a um jogo de futebol na vida, quero dizer, de corpo presente. Sinto que isso é tão errado como se eu fosse uma brasileira errada.

O jogo qual era? Sei que era Botafogo, mas não me lembro contra quem. Quem estava comigo não despregava os olhos do campo, como eu, mas entendia tudo. E eu de vez em quando, mesmo sentindo que estava incomodando, não me continha e fazia perguntas. As quais eram respondidas com a maior pressa e resumo para eu não continuar a interromper.

Não, não imagine que vou dizer que futebol é um verdadeiro balé. Lembrou-me foi uma luta entre vida e morte, como de gladiadores. E eu – provavelmente coitada de novo – tinha a impressão de que a luta só não saía das regras do jogo e se tornava sangrenta porque um juiz vigiava, não deixava, e mandaria para fora de campo quem como eu faria, se jogasse (!). Bem, por mais amor que eu tivesse por futebol, jamais me ocorreria jogar… Ia preferir balé mesmo. Mas futebol parecer-se com balé? O futebol tem uma beleza própria de movimentos que não precisa de comparações.

Quanto a assistir por televisão, meu filho botafoguense assiste comigo. E quando faço perguntas, provavelmente bem rolas como leiga que sou, ele responde com uma mistura de impaciência piedosa que se transforma depois em paciência quase mal controlada, e alguma ternura pela mãe que, se sabe outras coisas, é obrigada a valer-se do filho para essas lições. Também ele responde bem rápido, para não perder os lances do jogo. E se continuo de vez em quando a perguntar, termina dizendo embora sem cólera: ah, mamãe, você não entende mesmo disso, não adianta.

O que me humilha. Então, na minha avidez por participar de tudo, logo de futebol que é Brasil, eu não vou entender jamais? E quando penso em tudo no que não participo, Brasil ou não, fico desanimada com minha pequenez. Sou muito ambiciosa e voraz para admitir com tranqüilidade uma não participação do que representa vida. Mas sinto que não desisti. Quando a futebol, um dia entenderei mais. Nem que seja, se eu viver até lá, quando eu for velhinha e já andando devagar. Ou você acha que não vale a pena ser uma velhinha dessas modernas que tantas vezes, por puro preconceito imperdoável nosso, chega à beira do ridículo por se interessar pelo que já devia ser um passado? É que, e não só em futebol, porém em muitas coisas mais, eu não queria só ter um passado: queria sempre estar tendo um presente, e alguma partezinha de futuro.

E agora repito meu desafio amigável: escreva sobre a vida, o que significaria você na vida. (Se não fosse cronista de futebol, você de qualquer modo seria escritor). Não importa que, nessa coluna que peço, você inicie pela porta do futebol: facilitaria você quebrar o puder de falar diretamente. E mais, para facilitar: deixo você escrever uma crônica inteira sobre o que futebol significa para você, pessoalmente, e não só como esporte, o que terminaria revelando o que você sente em relação à vida. O tema é geral demais, para quem está habituado a uma especialização? Mas é que me parece que você não conhece suas próprias possibilidades: seu modo de escrever me garante que você poderia escrever sobre inúmeras coisas. Avise-me quando você resolver responder a meu desafio, pois, como lhe disse, não é todos os dias que leio você, apesar de ter um verdadeiro gosto em ser sua colega no mesmo jornal. Estou esperando.

(Clarice Lispector – crônica 30 março 1968. In: A descoberta do mundo, p. 89-91)

~ por Tommy Beresford em março 29, 2010.

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