Balanço do primeiro dia das transmissões do Desfile do Grupo Especial do Rio de Janeiro em 2010

Não ser jornalista e assistir aos desfiles das escolas de samba cariocas há tantos anos me dá mais liberdade em falar sobre a transmissão dos desfiles deste ano com mais tranquilidade. Afinal, não preciso agradar a ninguém, nem mesmo a mim mesmo.

Mas quando a transmissão começa e o (novo) apresentador anuncia, no final da noite de domingo, que “O CARNAVAL de 2010 do Rio de Janeiro está começando AGORA”, isso definitivamente já não é prenúncio de uma noite maravilhosa. Como assim, Luiz ? O carnaval do Rio já começou há muito tempo, e já estamos todos fartos desta eterna confusão entre Carnaval e Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial.

Salgueiro 2010

Salgueiro 2010

Glenda Kozlowski, bem melhor, chegou a ensaiar, num determinado momento do desfile, um “mas todos nós estudamos muito”, e eu acredito, pois sei que eles vão aos barracões e quadras antes dos desfiles, mas mesmo com um roteiro nas mãos acaba não sendo suficiente. Justamente no quesito mais importante, a “narração ala a ala” dos desfiles, a Globo pecou demais.

Começou mal, melhorou no meio e voltou a piorar no final. As duas primeiras escolas praticamente não tiveram suas alas narradas. Todos estavam preocupados em “se arrepiar” (e se calar) a cada paradinha da bateria; enquanto isso, as alas passavam e em casa tudo virava um jogo de adivinhação. Se eles próprios tiveram que recorrer a um contrariado Max Lopes, carnavalesco da Imperatriz Leopoldinense, para decifrar o que eram aquelas pedras enormes na comissão de frente da escola, imagine nós, que não temos roteiro em mãos.

O “contrariado” do parágrafo acima, é justamente em função de outra coisa que não se aprende de ano para ano: carnavalesco DETESTA dar entrevista justamente quando sua escola está entrando. Imagine o futuro pai — cuja esposa está na sala de parto prestes a parir — ter que parar para atender a imprensa… Fala sério.

Aconteceu novamente quando o Salgueiro ainda estava na Avenida e a Beija Flor já estava na área de concentração se preparando: Alexandre Louzada, um dos carnavalescos da Beija-Flor, foi capturado por um mecanizado e artificial Chico Pinheiro (por que, meu Deus, por que ?), que queria a qualquer custo que Louzada falasse da questão política de Brasília. Por sorte, Louzada, recém-chegado do hospital porque não estava bem, respondeu com elegância e não deu piripaque ali mesmo. Desnecessário, Chico, desnecessário. Fala sério.

Beija Flor 2010

Beija Flor 2010

Dos comentaristas, melhor para Haroldo Costa, como era de se esperar, e Pedro Luís, com suas anotações que googlemente associavam Mocidade, Mestre André e 1959, por exemplo. Não havia comentarista para fantasias e alegorias (saudade do “Olha, estou emocionada” de Maria Augusta…). Comentários do tipo “este é o desfile visualmente mais impactante dos últimos 25 anos” é típico de quem não assistiu aos desfiles dos últimos 25 anos… nem pela TV. Fala sério.

Em duas equipes, uma para as 3 primeiras escolas e outra para as 3 últimas, os repórteres tinham altos e baixos. No primeiro grupo, Ana Paula Araújo, com sua habitual competência, já anunciava na prática, em sua primeira aparição, que o esquema continuaria sendo o eterno “duas perguntas óbvias, duas respostas rápidas que eu tenho que cortar para outro repórter fazer a mesma coisa”. De novo este ano o mesmo esquema óbvio e superficial ? Fala sério.

Como os repórteres não podiam ver as reportagens dos demais, aconteciam repetições igualmente óbvias, como o “não vou desfilar mas estou aqui em cima do carro…”, etc. Sandra Moreira foi a que deu mais azar: ninguém ouvia o que ela perguntava, “queimando”, portanto, o tempo da tal primeira pergunta. Quando poderia ter brilhado, cobrindo um momento em que uma baiana não se sentia bem e tombava, tudo ficou confuso. Mas os repórteres em geral evitaram o “como anda seu coração ?” e o “qual a sua expectativa ?”, clichês recorrentes das transmissões em todos os anos.

Destaque absoluto para a excelente Renata Capucci: talvez por estar tão acima dos demais, de repente, puft, sumiu, desapareceu, foi abduzida por alguns dos muitos ETs da avenida. Fábio Pachel foi o mestre de aparecer com uma baqueta de uma bateria ainda trabalhando aqui, uma luz de uma comissão de frente ainda se exibindo ali… foi apelidado “o rei da muamba carnavalesca”. Até pedaço de esplendor apareceu em determinado momento em mãos da reportagem. Fala sério.

Homem Aranha na Unidos da Tijuca 2010

Homem Aranha na Unidos da Tijuca 2010

Foi boa (e provavelmente rentável) a ideia de eliminar a votação de notas do público por SMS de todo o Brasil: claro que somente a pequena parcela mais elogiosa foi para o ar. O maior erro entre as novidades: transferir os narradores para o início da avenida. Quando a escola estava no auge do desfile, eles estavam preocupados com o que estavam vendo na sua frente, ou seja, o meio da escola que ainda estava se preparando. Por sinal, dava sempre a impressão de que eles estavam vendo uma coisa, comentando sobre uma segunda coisa, e a emissora transmitindo uma terceira casa: muitas vezes o que víamos e ouvíamos dos narradores e comentaristas não se casavam.

Os piores momentos foram na entrada da Beija-Flor, quando o intervalo comercial não permitiu que o espectador visse um dos momentos mais esperados: o grito de guerra de Neguinho da Beija-Flor, e o excesso de reportagens (seria que tinham que cobrir alguma cota ?) que veio a seguir, que demorou tanto que quando lembraram de narrar a Beija-Flor a escola já estava bem à frente. Além disso, alguns closes desnecessários na genitália de algumas mulheres relembraram momentos ‘trash’ das transmissões da década de 80 (a propósito, igualmente ‘trash’ os momentos “autoridade tocando instrumento ao lado de rainha de bateria para sair nas fotos”).

Outro erro da emissora foi colocar os melhores momentos do primeiro dia de desfiles pela manhã. Cuma ? Mal acabaram os desfiles e já colocam os melhores momentos ? Ok, não dá para não exibir “Alma Gêmea” e a “Sessão da Tarde”, eu sei…

A emissora mostrou, de perto, Paris Hilton (com ótima intervenção da reporter, que infelizmente não decorei o nome) e, de longe, Madonna, suas filhas Lourdes Maria e Mercy e seu namorado Jesus Luz, mas não vimos os detalhes do tumulto que a diva pop causou na avenida quando desceram do camarote para acompanhar a apresentação da Imperatriz Leopoldinense. Parece que ela volta hoje para os Estados Unidos com mais US$ 2 milhões para sua ONG arrecadados no Brasil, segundo Bruno Astuto no jornal O Dia de hoje, 15.02.2010… Também não vimos Gerard Butler que, segundo o jornal O Dia, desfilou na União da Ilha. Melhor focar nos passistas e nas pessoas da comunidade, mas… ué, cadê estes ? Nem sempre as câmeras focalizavam quem realmente estava dando o suor pela escola.

Madonna, Gerard Butler e Rodrigo Santoro no camarote da Brahma / Foto de Berg Silva

Madonna, Gerard Butler e Rodrigo Santoro no camarote da Brahma / Foto de Berg Silva

Mas o maior destaque da transmissão não estava na pista nem nos bastidores (o que eram aquelas reportagens enooormes de Ana Furtado ?): foram as reportagens previamente feitas nos barracões e quadras com membros das escolas e apresentadas no início de cada desfile. Dez, nota dez.

Entre as escolas, Beija-Flor e Salgueiro honraram suas tradições de grandes desfiles, apesar da correria no final. União da Ilha merece continuar no Grupo Especial, e Unidos da Tijuca merece estar no Desfile das Campeãs com o show de criatividade de Paulo Barros.

Comissão de frente da Unidos da Tijuca: grande destaque entre as comissões no primeiro dia de desfile em 2010

Comissão de frente da Unidos da Tijuca: grande destaque entre as comissões no primeiro dia de desfile em 2010

Merecidamente, Unidos da Tijuca, Salgueiro e Beija-flor ouviram gritos de ‘é campeã’ durante seus desfiles. A Viradouro (apesar da fantástica ala de baianas) fez um desfile bastante inferior aos anos anteriores e Imperatriz Leopoldinense veio belíssima mas sem a chama da vitória. Foi uma noite de ótima desfiles, mas anunciando uma segunda noite quiçá ainda melhor.

De resto, Chico Pinheiro pode tranquilamente voltar ao carnaval de São Paulo, preferencialmente mediante a volta do diretor da transmissão (por onde ele andava que não via tantas pequenas falhas ? Não tinha diretor ?)…

O baile todo: Jesus Luz, Madonna, Dilma Rousseff, Sergio Cabral e Eduardo Paes no camarote do governo do estado do Rio / Foto de Ivo Gonzalez

O baile todo: Jesus Luz, Madonna, Dilma Rousseff, Sergio Cabral e Eduardo Paes no camarote do governo do estado do Rio / Foto de Ivo Gonzalez

~ por Tommy Beresford em fevereiro 15, 2010.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: